A investigadora do ADVANCE/ISEG Research e psicóloga, Catarina Martins Lopes, foi a oradora da terceira sessão do ciclo CONFERÊNCIAS FORA DA CAIXA, que decorreu no dia 29 de abril e teve como tema geral «A Saúde Fora da Órbita Newtoniana», que permitiu compreender matérias como «Da lógica linear à complexidade dos sistemas» e «Contributos da gestão e do comportamento organizacional».
Através da sua apresentação, a investigadora visou uma reflexão sobre os “sistemas adaptativos complexos” – “sociais (organizações) e naturais (corpo humano)” – e de como os seus “resultados, comportamentos e padrões emergentes” são difíceis de controlar e prever, dada “a racionalidade limitada, a ambiguidade e a incerteza das condições iniciais dos agentes e dos contextos condicionados pelo aqui e agora”.
Segundo Catarina Lopes, sistemas adaptativos complexos são “diversos agentes que aprendem enquanto interagem de forma não linear na procura da adaptação, sendo que esta, por sua vez, revela características complexas e cruciais que os permite auto-organizar localmente em torno das regras, dos limites, da sua racionalidade limitada e dos constrangimentos”.
Na sessão, que teve lugar no auditório da Ordem dos Médicos, em Lisboa, à conferência propriamente dita antecedeu uma breve intervenção do Presidente do Conselho Regional do Sul, que considerou estar prestes a “navegar na incerteza ligada ao dilema contemporâneo de que, por um lado, existem os modelos newtonianos e, por outro lado, há a gestão num mundo imprevisível e cada vez mais difícil de gerir”.
Paulo Simões foi ao encontro da visão da investigadora, sublinhando que o tema desta terceira conferência convida a fazer uma “análise profunda sobre os sistemas adaptativos complexos, em que os profissionais de saúde e os gestores são agentes semiautónomos, que, por sua vez, se auto-organizam em face da incerteza”.
Catarina Lopes começou, então, por dizer que na área da Medicina, tal como na Gestão, a “variabilidade de agentes” lida com “problemas complexos”, enfrentando a necessidade de adaptação, “centrados na sobrevivência e na maximização da performance, através do equilíbrio difícil de alcançar entre a eficiência e a flexibilidade no limite do caos”.
Segundo a investigadora, a complexidade desafia os limites do “paradigma clássico ancorado no pensamento newtoniano” e representado pelas metáforas da “máquina, no caso da gestão, e do heart as pump, no caso da Medicina”, que levam à “crença de que todos os sistemas podem ser estudados, alterados e melhorados por linearidade, previsibilidade e controlo na aplicação do “reducionismo” – “reduzir para resolver”.
No fundo, “mais do que uma metáfora bem elaborada e ilustrativa dos problemas complexos do sistemas sociais e naturais, a ciência da complexidade representa um novo paradigma que oferece novas e melhores formas de lidar com desafios, incoerências atuais e necessidades persistentes, às quais os fundamentos do paradigma clássico não consegue dar resposta”.
PARADIGMAS CLÁSSICO E DA COMPLEXIDADE
De acordo com a apresentação de Catarina Lopes, no “pensamento newtoniano” em que o paradigma clássico se apoia, a realidade é “objetiva e disjuntiva”, o foco está em “reduzir parte e isolar as variáveis”, bem como as “propriedades são estáveis e pré-definidas”. Além disso “apenas os observadores neutros podem revelar a sua essência”.
Segundo a oradora foram vários os autores, médicos e académicos que, ao longo do tempo, questionaram o paradigma newtoniano, nomeadamente se a educação médica e o modo de pensar dos médicos, “mais reducionista ou mais holístico”, podem influenciar a “abordagem na prestação de cuidados”, recorrendo a “regras diretas, mais análises e praticando uma Medicina mais empírica”.
Sobre o paradigma da complexidade, Catarina Lopes explicou que a realidade é caracterizada como “dual, paradoxal, dinâmica, evolutiva” e muitas vezes é “incompreendida”, englobando incertezas, imprevisibilidade e transformações”. Este paradigma não apresenta uma teoria universal, mas uma “ciência da complexidade emergente”, disse.
A psicóloga foi mais longe e explicou que neste contexto “o observador e o observado influenciam-se mutuamente e procuram dar sentido a regras e limites em cada momento e local”. Estes “processos dinâmicos”, que Catarina Lopes considerou ocorrerem ao nível micro entre agentes em auto-organização, levam à “emergência de padrões num todo holístico que se manifesta ao nível macro”.
No entanto, apesar do reconhecimento da complexidade, Catarina Lopes sublinhou que o pensamento newtoniano continua a ser dominante e que a sua “atratividade e força” derivam da eficiência perante diferentes situações, quer simples, quer complicadas.
Segundo a conferencista, na área da gestão e do comportamento organizacional também alguns autores apresentaram as suas conclusões. A título de exemplo. refletiram que a valorização de um “knowledge as prediction” mais completo e preciso em detrimento de um “knowledge as understanding” promove um “afunilamento dos agentes na redução da complexidade, como se isso acontecesse facilmente”.
Catarina Lopes deu, ainda, a conhecer que médicos e académicos aplicaram os sistemas adaptativos complexos a estudos sobre a saúde e a doença, colocando como hipótese estas matérias serem um “fenómeno emergente que resulta de interações dinâmicas não lineares entre elementos que se auto-organizam na adaptação às várias mudanças”.
Por outro lado, a psicóloga defendeu a necessidade de compreender melhor o paradigma da complexidade na educação médica e de “os seus desafios serem lidos à luz de contributos de gestão e do comportamento organizacional”. Nesse contexto falou acerca de uma investigação da qual fez parte, que visou contribuir para um maior conhecimento das fundações desse paradigma, nomeadamente ao nível ontológico, epistemológico e da Praxeologia.
Nesse sentido, Catarina Lopes abordou a natureza da realidade (Ontologia), sublinhando que tanto na Gestão como na Medicina “o paradoxo está sempre presente” e que é “importante encontrar abordagens mais interativas, conjuntivas que respeitem a dualidade dos sistemas”.
Quanto à forma de os agentes lidarem com as situações (Praxeologia) referiu que “nas áreas da Gestão e da Medicina, sendo ciências aplicadas e práticas, importa atender à idiossincrasia de cada caso”. Já em termos epistemológicos sublinhou a importância de saber “que assunções são utilizadas para compreender os fenómenos observados”.
No final da conferência de Catarina Lopes houve um momento dedicado às intervenções do público, seguido de uma breve intervenção do Presidente do Conselho Regional do Sul, que, ao encerrar a sessão, considerou que o tema abordado “obriga a pensar e a refletir, dada a sua complexidade e exigência”.