Para Gustavo Jesus, os quatro pilares da felicidade são uma boa organização no trabalho, uma dieta saudável, exercício físico regular e um sono de qualidade, mas há um aspeto igualmente importante – as boas relações sociais. O psiquiatra disse-o na sua conferência PODEM OS MÉDICOS SER FELIZES?, que o Conselho Regional do Sul promoveu.
A segunda sessão do ciclo CONFERÊNCIAS FORA DA CAIXA decorreu no dia 25 de fevereiro, no auditório da Ordem dos Médicos, em Lisboa, e o conferencista foi desta vez o também diretor do serviço de Psiquiatria da ULS Estuário do Tejo, Gustavo Jesus.
Gustavo Jesus abordou os diversos aspetos que podem contribuir decisivamente para “estar feliz”, conceito que defende ser mais acertado do que o de “ser feliz”, que traduziria um estado permanente de felicidade que na verdade não é atingível. “Não é possível ser feliz, mas é perfeitamente possível estar feliz”, disse.
Os médicos, segundo o psiquiatra, não são diferentes das outras pessoas, embora tenham uma profissão em que lidam com “outcomes que podem causar tristeza”. Esta particularidade tem peso, mas os médicos têm “ferramentas” para se adaptarem a essa circunstância.
De modo geral, Gustavo Jesus, que apresentou estudos rigorosos sobre a felicidade – um deles que está em curso há cerca de 80 anos – defende que estar feliz depende em boa parte de quatro fatores: a organização do trabalho, a dieta, o exercício físico e o sono.
Entre todos, a organização do trabalho é o único fator que “não depende de cada pessoa individualmente”, recordou, mas é de grande complexidade, exige “mudar a forma como trabalhamos” e depende muito de lideranças próximas e distantes.
Quanto à dieta, a solução está ao alcance de todos, mas advertiu que “não há superalimentos e que essa coisa de comer romãs todos os dias é um engano”, mas, embora não seja a sua especialidade, defendeu uma dieta rica em fibra com proteína de boa qualidade e ácidos gordos, que têm um efeito positivo no bem-estar.
Já o exercício físico, está testado que não só contribui para a forma, mas também para “o alívio da inflamação sistémica e protege-nos do stress”, referiu Gustavo Jesus, que dá também uma importância decisiva ao sono.
Para o psiquiatra, as teses que correm nas redes sociais sobre o sono “são perigosas” e dão a perceção de que se pode dormir pequenos períodos durante o dia e tudo fica bem. “Não é assim” e essas mensagens devem ser combatidas com veemência. De resto, recordou que o sono depende também muito do fator organização do trabalho, o que lhe confere uma particularidade não controlável individualmente.
Para além destes quatro fatores, Gustavo Jesus sublinhou a importância das relações do dia-a-dia, quer no trabalho quer no resto dos contactos sociais, e que tenham nas suas vidas “um work-life balance” positivo, isto é, que o tempo dedicado ao trabalho seja apenas o aceitável, que permita que cada médico possa fazer tudo o que é de mais importante nas suas vidas.
A conferência PODEM OS MÉDICOS SER FELIZES? Terminou depois de várias intervenções das pessoas que assistiram, na esmagadora maioria médicos, e de um remate de Paulo Simões, presidente do Conselho Regional do Sul, que sustentou a necessidade de mudar todo o processo de formação dos médicos para que estejam capazes de manter vidas felizes, numa altura em que as exigências de dedicação superam o razoável.