O Núcleo de História da Medicina da Ordem dos Médicos (NHMOM) em conjunto com o Conselho Sub-regional de Faro e com o apoio da Câmara Municipal e da Santa Casa da Misericórdia de Loulé promovem uma jornada de visita orientada ao património médico do Algarve, no caso a Loulé e ao seu rico núcleo museológico, no dia 6 de junho. A visita carece de inscrição prévia a que pode aceder aqui.
Esta segunda sessão da visita orientada realiza-se no âmbito de um projecto iniciado em 2024 - Estudo do Património Médico do Algarve. O programa da iniciativa arranca às 09h45 junto ao Núcleo Museológico de Loulé, onde irão decorrer as várias actividades do programa, até à hora de almoço, cujo último ponto será a apresentação de uma comunicação por Maria do Sameiro Barroso: As termas como espaço terapêutico (e cirúrgico).
PROGRAMA
09H45 - PONTO DE ENCONTRO JUNTO AO NÚCLEO MÚSEOLÓGICO
10H00 - NÚCLEO MUSEOLÓGICO SANTA CASA DA MISERICÓRDIA DE LOULÉ
11H00 - BANHOS ISLÂMICOS
12H00 - AS TERMAS COMO ESPAÇO TERAPÊUTICO (E CIRÚRGICO) I CONVERSA COM MARIA DO SAMEIRO BARROSO
AS TERMAS COMO ESPAÇO TERAPÊUTICO (E CIRÚRGICO)
Maria do Sameiro Barroso
A água, para além de ser fundamental para a higiene e hidratação, esteve desde sempre ligada à religiosidade, operando através dos deuses, sendo benéfica independentemente de as águas terem ou não propriedades terapêuticas específicas. Além do seu aspecto ligado ao sagrado, funcionavam como fisio e hidroterapia.
No nosso país abundam deuses relacionados com o culto das águas desde o período pré-romano, tal como salientou José Leite de Vasconcelos (1858-1941), médico de formação e fundador do Museu Nacional de Arqueologia, citando, por exemplo, o culto do deus Bormânico nas Caldas de Vizela.
Em Roma, Cícero (106-43 AEC) refere o culto de Minerva Memor Médica, uma deusa antiga romana cujo templo estava associado a banhos ou termas. Inscrições dedicadas a esta deusa médica agradecem curas milagrosas.
No mundo grego, a prática dos desportos, atividade fundamental para preservar “uma alma sã num corpo são”, levou à criação dos Jogos Olímpicos, realizados em honra do deus Zeus, entre 776 AEC a 395 EC, em Olímpia, numa planície relvada junto ao rio Alfeu, que fornecia água para banhos junto à palestra, palco do treino. Antes das competições, os atletas untavam-se com azeite para se protegerem das queimaduras solares e da acumulação de poeiras. Após o exercício, raspavam o azeite, o pó e o suor com a ajuda de estrígeis antes de tomarem banho.
Heródico de Selímbria, médico da escola de Cnido do século V AEC, é considerado o pai da Medicina Desportiva. Acreditava que a doença era o resultado de um desequilíbrio entre a dieta e a atividade física e, por isso, recomendava uma dieta rigorosa, atividade física constante e treino regular, inclusivamente em doenças agudas e com febre, o que nem sempre deu bom resultado, como, mais tarde comentou Hipócrates de Cós (460 -377 AEC).
Além da sua função principal, nos cuidados de higiene, os estrígilos eram utilizados na medicina. Para Aulo Cornélio Celso (?-40 EC), a estrígil era a ferramenta de eleição no tratamento das inflamações graves do ouvido, para massagens após treinos excessivos e para servir como conta-gotas. As estrígeis surgem associadas à iconografia mais emblemáticos da profissão médica na Antiguidade, representando equilíbrio e bem-estar daqueles que conseguiam prevenir as doenças e preservar a saúde, tal como preconizava Galeno de Pérgamo (129-c.217 EC) na obra “De Sanitate Tuenda”.
Nos edifícios termais, está documentada a existência de massagistas e a prática de operações cirúrgicas. Instrumentos cirúrgicos foram encontrados em Colonia Ulpia Traiana, perto de Xanten, capital da província romana da Germânia Inferior (atualmente perto de Bona, Alemanha) e nas termas do Alto da Cividade de Bracara Augusta, Braga.
Os edifícios termais, por serem locais tranquilos com abastecimento de água, teriam sido considerados locais adequados para a realização e recuperação de intervenções cirúrgicas.
Os interessados podem aceder ao programa no ficheiro abaixo